Travessia


O que sou para ti, senão travessia? Trem, estrada, estação.
Sou mar que atravessas a bordo do teu navio. Não por me quereres sempre tua, mas porque estou entre o que tu eras e o que tu serás.
 E o que tu és, só o és enquanto navegas em mim. Te transformo. Amanhã tu não mais serás. Nem o que és hoje, nem o que tu foras ontem.
E eu ei de chorar?!
Sou, para ti, um não lugar. E tu me farejas de longe! Passas por mim, passas em mim. E não te demoras sequer um verão.
Tu és espelho de todos os outros que um dia me atravessaram sem deixar sinais. Tu és tão igual no teu discurso, na mediocridade da tua poesia, no amor que nutres orgulhoso por ti mesmo e és ainda mais igual a todos os outros quanto mais queres ser diferente. Podes ser qualquer um, pode ter qualquer nome e não me é necessário que haja rima.
Mas ainda assim, eu te abri todas as portas: da minha casa, do meu corpo, do meu coração. Quando tu entrastes não ofereci resistência alguma. Mas teu passo é leve e tens pressa. E tão logo me fizestes abrigo já partistes. Para onde? Para teu destino último, suponho, a que vives a perseguir: teu ego.
Tu percorreste todos os meus espaços vazios, sem, no entanto, preenche-los. E quando tu te fosses eu já estava mais deserta do que nunca. Tua passada não me deixou marca. E as folhas que teu vento balançou logo se assentaram como se tu nunca estivesses estado por aqui.
Tu atravessaste as minhas tempestuosas marés e, no entanto, estais intacto.
E, no entanto, estou eu intacta.
Como se nunca, nem por um segundo, tivéssemos nos devorado

 (e quem sabe nos amado? Quem sabe!). 

Maria Capitu 

Aos meus amores de verão. 

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