Travessia
O que sou para ti, senão travessia? Trem, estrada, estação. Sou mar que atravessas a bordo do teu navio. Não por me quereres sempre tua, mas porque estou entre o que tu eras e o que tu serás. E o que tu és, só o és enquanto navegas em mim. Te transformo. Amanhã tu não mais serás. Nem o que és hoje, nem o que tu foras ontem. E eu ei de chorar?! Sou, para ti, um não lugar. E tu me farejas de longe! Passas por mim, passas em mim. E não te demoras sequer um verão. Tu és espelho de todos os outros que um dia me atravessaram sem deixar sinais. Tu és tão igual no teu discurso, na mediocridade da tua poesia, no amor que nutres orgulhoso por ti mesmo e és ainda mais igual a todos os outros quanto mais queres ser diferente. Podes ser qualquer um, pode ter qualquer nome e não me é necessário que haja rima. Mas ainda assim, eu te abri todas as portas: da minha casa, do meu corpo, do meu coração. Quando tu entrastes não ofereci resistência alguma. Mas teu passo é leve e tens pre...