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Travessia

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O que sou para ti, senão travessia? Trem, estrada, estação. Sou mar que atravessas a bordo do teu navio. Não por me quereres sempre tua, mas porque estou entre o que tu eras e o que tu serás.  E o que tu és, só o és enquanto navegas em mim. Te transformo. Amanhã tu não mais serás. Nem o que és hoje, nem o que tu foras ontem. E eu ei de chorar?! Sou, para ti, um não lugar. E tu me farejas de longe! Passas por mim, passas em mim. E não te demoras sequer um verão. Tu és espelho de todos os outros que um dia me atravessaram sem deixar sinais. Tu és tão igual no teu discurso, na mediocridade da tua poesia, no amor que nutres orgulhoso por ti mesmo e és ainda mais igual a todos os outros quanto mais queres ser diferente. Podes ser qualquer um, pode ter qualquer nome e não me é necessário que haja rima. Mas ainda assim, eu te abri todas as portas: da minha casa, do meu corpo, do meu coração. Quando tu entrastes não ofereci resistência alguma. Mas teu passo é leve e tens pre...

A bêbada e a equilibrista

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1 Caiu a tarde, o viaduto e o avião. E eu, a bêbada equilibrista trajando luto fiz do meu (ul)traje verbo. Lutar é a malha que cobre meu corpo nu enquanto a passos tortos atravesso a fina linha de sorrisos e engodos tortuosos. Bebo do cálice de vinho tinto que é sangue e é bandeira. Em instantes embriago-me das paixões e dos sonhos aos remendos que o reto não concebe. Embebedo-me de vermelho, que também é a cor dos meus cabelos. Desvio da linha reta das convenções, dos ódios declarados ou não e da falsa promessa que sua linearidade perfeitamente alinhada é capaz de me proteger dos abismos. Não é! Escolhi o trapézio por vontade e vocação. Atiro-me, lanço-me de uma lado ao outro sem medo da queda. Rede alguma me ampara. Sou equilibrista. Nas pontas dos pés, a corda torta me desafia - “vem dançar em mim” – Corda tão torta quanto as ruas da cidade que desterrei. Por sorte meus pés acostumaram a percorrê-las em sinuosos passos. Fossem meus pés retos e a queda para morte para ser...

Sou multifacetada. Sou colorida. Sou ciência e energia...

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Minha presença no mundo é efêmera. Ainda não pari coisa alguma. Nem filho que me faça mãe, nem obra que me faça ser. Se partir hoje, se morrer agora, viro tinta e pó. Serei esboço, o vir a ser. Não teria sido nada senão ideias, parte de mim. A vida pulsa. Rasga as entranhas. Quer nascer. Quer ser gente e andar sozinha. Ensaia os primeiros passos, cambaleia, anda, corre, alcança... Alcança? Atravesso os mares em um segundo. O mundo inteiro não cabe em mim. Sou efêmera. Sou presença liquida. Sou extensa, sou intensa... e eis a rima. Corro de pés no chão. Não tenho medo de me ferir. Sou a filha e a mãe da terra. Gerei no meu ventre suas sementes. O mundo me pertence. E posso confina-lo em um abraço. Sou sozinha e amo a solidão como a uma igual. Não pertenço. Sou água que escorre das mãos. Sou livre.  Sou palavra sentida (e jamais dita) que escorre do ser para o papel, pinga de dentro para dentro e cada vez mais dentro. E então sou silêncio. Sou multifacetada. Sou color...

Poetizar-te

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Quero condensar-te em meus versos Sem rima, sem métrica e sem propósito Para que existas, Aqui e agora Para além e para sempre Nas minhas entrelinhas E se um dia Alguém ousar decifrar-me Há de te encontrar Por escrito Na minha poesia e no meu silêncio Maria Bonita 

(Des) florescer

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Todos os meses A flor da pele Despetalo Me desfaço Neste sangue sagrado Que meu ventre verte Viro-me do avesso e ao inverso Pulsa no útero o verso Prenhe de todas as dores do mundo, prestes a pari-las Sou Marias A virgem, a louca e a arrependida Viro mártir Incendeio pela barriga Sangro em pétalas De sagrada fêmea Para então renascer em vermelha flor. Maria Madalena