A bêbada e a equilibrista
1
Caiu a tarde, o viaduto e o avião. E eu, a bêbada
equilibrista trajando luto fiz do meu (ul)traje verbo. Lutar é a malha que
cobre meu corpo nu enquanto a passos tortos atravesso a fina linha de sorrisos
e engodos tortuosos. Bebo do cálice de vinho tinto que é sangue e é bandeira.
Em instantes embriago-me das paixões e dos sonhos aos remendos que o reto não
concebe. Embebedo-me de vermelho, que também é a cor dos meus cabelos. Desvio
da linha reta das convenções, dos ódios declarados ou não e da falsa promessa
que sua linearidade perfeitamente alinhada é capaz de me proteger dos abismos.
Não é! Escolhi o trapézio por vontade e vocação. Atiro-me, lanço-me de uma lado
ao outro sem medo da queda. Rede alguma me ampara. Sou equilibrista. Nas pontas
dos pés, a corda torta me desafia - “vem dançar em mim” – Corda tão torta
quanto as ruas da cidade que desterrei. Por sorte meus pés acostumaram a
percorrê-las em sinuosos passos. Fossem meus pés retos e a queda para morte
para seria inevitável. Ainda bem que minha mãe me fez assim, torta. O vinho
vermelho de sangue e luta me bebe - e eu a ele.
Embriagamo-nos um ao outro. Ele embebedado de mim. Bêbada, meus passos
são oblíquos como os olhos dissimulados de Capitu. O perigo vem também de
dentro. Acima e abaixo da corda tudo é mar, é ressaca que não se conteve em
meus olhos e jorrou para fora de mim.
Bêbada de salto alto que se equilibra nas ondas da
maré. É preciso ter cuidado para não se afogar.
2
Equilibro na cabeça sol na peneira que a cada andar
atravessado corre o risco de ruir. Peneira larga essa que levo. Cabe nela tanta
luz. Lua, estrelas, sonhos, loucos, ocos.
Nos ombros o peso de equilibrar-se mais do que se pode
ser/ter/carregar.
A casa engraçada, as contas bancárias, a tese
ordinária, a saúde comprimida, as garrafas equilibristas, doces estrategistas,
solidão que se espalha, a família distante, vivendo no mar, os amigos ausentes,
os felinos exigentes que miam em protesto por lhe dizerem que não podem possuir
a lua. A pilha não para de crescer. Acumulam-se sob os ombros com o
extraordinário peso da sua imaterialidade. É preciso acomoda-las as costas e
seguir de um lado a outro. Lá se vão meus pés e a corda chama- “vem logo dançar
em mim!” -. Pés, pontas, soluços, voltas, esquerdas.... Bêbada equilibristas!
3
Se procuro um ponto de apoio é pra não rebentar de vez
Ponto
Tonto
Torto
Sei que não sou artista, minha linhas se embriagam.
Onde estão os contornos?
Nelas não há alinhamentos grossos e definidos.
Embaraçam como o meu cabelo quando era menina Onde estão os meus contornos?
4
A esperança de salto alto dança a cada passo que se
lança entorta um pouco mais aquela curva, aquela curva que não se alcança.
5
Meus passos trôpegos esbarram nas sombras de um
passado que não vivi. No ventre do céu é noite. A madrugada, bordel. A lua
cafetina pede a cada estrela fria um brilho de aluguel. Onde estão Marias e
Clarisses? Vertem prantos irreverentes
que soam como uma canção de guerra falando de luta e valentia.
Verto prantos tantos eu também, bêbada equilibrista.
Será essa nossa sina? Equilibrar na cabeça água na peneira?
6
Um passo em falso e a queda de Alice
Tic-tac tic-tac tic-tac - corre, Coelho, corre! Grita
o relógio
O tempo tem pressa
Tic-tac tic-tac
tic-tac – corre Alice, corre! Grita o relógio
Entortaram os ponteiros. A corda bamba balança. Segue
a bêbada equilibrista esperança vestida de LUTA. Os és calejados do balé que
com tanta determinação executa desajeitada, desajustada, empoderada.
7
Chove. Chuva. Chove pranto. Chove tanto.
Desaguam as chuvas dos olhos da bêbada equilibrista
Como se chama mesmo a moça, Maria?
Chove lágrima. Chora chuva.
Pelo irmão diferente – torto
Pelo pai doente – louco
Pela mãe aflita – verso em lira
Pela avó falecida – vinda finda
Chove a lágrima, chora a chuva
Pelo amigo que partiu sem nunca conhecer. Qual teria
sido seu destino? Inferno ou paraíso? Depende de quem crê.
8
Mais um gole, por favor.
Desfaz o laço
Cai do pé esquerdo a sapatilha da esperança bailarina
Voa, fita, frio objeto inanimado. Voa bem alto. Grita
ao mundo a leveza da tua liberdade que de tão sútil o vento soprou.
9
Treme a corda tênue. Treme o peito. Que ao seio nunca
falte leite. Que ao ventre nunca falte amor. Alimento primitivo da humanidade. Eis
minha oração
A bêbada equilibra na cabeça mil gerações de fêmeas.
Leva os séculos na peneira.
Maria Capitolina (Maria Capitu)
Marias

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